Portugal aqui ao lado

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Há vários motivos que levam a que, por vezes, nos sintamos mais próximos de cidades que estão a milhares de quilómetros do que de alguns locais aqui ao lado. Quando digo "nós" refiro-me, especialmente, aos sortudos como eu, que nasceram junto ao mar - onde a mãe, chegada do interior transmontano, veio desaguar - e, mais do que isso, junto a uma das duas grandes cidades que competem no país. São as tecnologias, as aplicações, os telemóveis, o mundo à distância de um clique, os filmes e as notícias que consumimos e esta mania de achar que somos maiores do que na verdade somos. E nós temos tudo para ter grandes cidades, mesmo quando as nossas cidades grandes são mais pequenas que a esmagadora maioria daquelas com que competimos.

A tragédia de Pedrógão é um exemplo disto mesmo. Ninguém na cidade grande imaginava que aquilo pudesse acontecer, por vários motivos: é longe, não vende jornais e não rende votos. E estamos todos demasiado longe de Pedrógão para fazermos ideia do que é viver no interior de um país inclinado para o mar, onde Lisboa e Porto acham que têm de competir e não procurar formas para se complementarem. Aquando do incêndio, discutia-se a gravíssima questão da candidatura à Agência Europeia do Medicamento; que era no Porto, que era em Lisboa, e que estava tudo centralizado em Lisboa, que o Porto isto e Lisboa aquilo. E eu imagino o interesse da restante população do país a acompanhar esta novela, dos cidadãos dos Pedrógãos todos, que hão-de perguntar-se por que não em Castelo Branco, em Bragança, em Évora, em Beja, em Leiria ou em qualquer outra cidade.

É que, na verdade, nem o Porto nem Lisboa precisam de uma Agência do Medicamento para se promoverem. Mas ficámos todos chocados com o que sucedeu em Pedrógão, claro, mas, se calhar, é melhor começarmos a pensar como vai ser daqui para a frente.

O que aconteceu naquele incêndio é uma consequência daquilo que é a nossa acção como cidadãos. Enquanto as elites lisboeta e portuense discutem o prestígio internacional, arrastando-nos a todos para essa questão, há um país que todos os anos morre um bocadinho com incêndios. Há portagens em estradas já pagas, há escolas fechadas, há tribunais fechados, centros de saúde fechados, até o banco do Estado fecham. E levaram até as Juntas de Freguesia, numa série de medidas feitas a partir de Lisboa por gente que acha que 5 quilómetros em Lisboa são os mesmos 5 quilómetros que separam duas localidades no interior. E não são. E ninguém quer viver onde não há nada.

O mais surreal nisto tudo é que, muitas vezes, estas medidas de promoção da desertificação são promovidas por pessoas do interior e aprovadas por gente eleita em distritos do interior. Que, na verdade, não quer ser o eleito pelo seu distrito, quer ser aquele que no seu distrito é conhecido por estar em Lisboa, curvando-se perante a elite da metrópole.

Portugal mantém-se inclinado para o mar, com duas cidades que, se não aprenderem a conviver e tiverem capacidade de perder algumas coisas para o resto do país, vão acabar por afogar-se. É que não deve haver muitos países onde quase 50% da população se concentra em apenas dois grandes centros, no caso, as Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto. Bem acima de 800 habitantes por km2, quando a média do país é de pouco mais de 100.

E não, não falta nada ao Porto nem falta nada a Lisboa. Basta levantarmos a cabeça dos smartphones e olharmos para o resto do país.

1 comentário:

  1. Um dos elementos que está a descaracterizar a cidade (ou as cidades) é este novo turismo desinteressado que aterra e que permanece, apenas para tornar as vidas de muitos portugueses muito mais complicadas. É ver os novos preços das rendas e das propriedades (uma ganância inacreditável). Olhemos também para o estado das cidades.

    ResponderEliminar